Os principais tipos de demência: Alzheimer não é o único — e saber a diferença muda tudo

Demência não é uma doença só. É um termo que reúne vários tipos diferentes de problemas no cérebro, cada um com suas características, seu ritmo e seus desafios. Conhecer o tipo certo não é detalhe técnico — é informação essencial para cuidar melhor, tomar decisões mais seguras e entender o que está acontecendo com a pessoa que você ama. Neste artigo, vou te explicar os quatro tipos de demência mais comuns de forma clara e acessível, para que você possa entender o diagnóstico do seu familiar — e se sentir um pouco mais preparado para o caminho pela frente.

Dr Mohamed Handous

6/22/20268 min read

Primeiro: o que é demência, afinal?

            Muita gente usa as palavras "demência" e "Alzheimer" como se fossem sinônimos. Mas não são. O Alzheimer é o tipo mais comum de demência — mas é só um deles.

Demência é o nome que damos quando o cérebro de uma pessoa começa a funcionar de forma diferente do habitual, afetando a memória, o raciocínio, a linguagem, o comportamento ou a capacidade de realizar as tarefas do dia a dia. É um declínio real, progressivo, que interfere na vida da pessoa.

No Brasil, estima-se que entre 5% e 17% das pessoas com mais de 60 anos vivam com algum tipo de demência. Na América Latina como um todo, essa proporção chega a 8,5% — acima da média mundial. São milhões de famílias convivendo com essa realidade, muitas vezes sem informação suficiente para entender o que está acontecendo.

Agora vamos ao que importa: quais são esses tipos?

1. Doença de Alzheimer — o tipo mais conhecido

          O Alzheimer é responsável pela maioria dos casos de demência — cerca de 60% de todos os casos. Por isso é o mais falado e o mais associado à palavra "demência" no imaginário popular.

No Alzheimer, o cérebro vai perdendo neurônios de forma progressiva, começando geralmente pela região responsável por guardar memórias novas (chamado de hipocampo). É por isso que o primeiro sinal costuma ser justamente aquele esquecimento que incomoda: a pessoa repete a mesma pergunta que já fez há cinco minutos, esquece compromissos marcados, não se lembra do que comeu no almoço — mas consegue contar com detalhes histórias de 30 anos atrás.

Com o tempo, outros aspectos vão sendo afetados: a pessoa começa a se perder em lugares conhecidos, tem dificuldade de encontrar palavras, de gerenciar o próprio dinheiro, de planejar tarefas simples. Nos estágios mais avançados, a dependência se torna total.

Além da memória, o Alzheimer também afeta o comportamento e o humor. Apatia — aquela sensação de que a pessoa "apagou", perdeu o interesse em tudo —, irritabilidade, ansiedade e, em fases moderadas a avançadas, agitação e desconfianças exageradas são muito comuns. Muitas vezes são esses sintomas que mais pesam para o cuidador.

O que é típico do Alzheimer

        O início habitualmente é muito gradual — tão devagar que a família muitas vezes não consegue dizer quando exatamente começou. O esquecimento de fatos recentes é o sintoma que mais aparece no começo, enquanto as memórias antigas ficam preservadas por muito tempo. Não costuma haver tremores, rigidez ou alucinações no início — se isso aparecer cedo, provavelmente não é Alzheimer.

2. Demência Vascular — a demência do coração e dos vasos

          A demência vascular é a segunda causa mais comum. E ela tem uma origem muito diferente do Alzheimer: em vez de uma proteína que se acumula no cérebro, o problema aqui são os vasos sanguíneos.

Quando os vasos que levam sangue ao cérebro ficam danificados — por pressão alta não controlada, diabetes, colesterol elevado, tabagismo ou derrames —, certas regiões do cérebro ficam sem oxigênio e os neurônios morrem. Pode acontecer de uma vez, após um derrame visível com sintomas claros. Ou pode acontecer aos poucos, em pequenos "derraminhos" tão discretos que a pessoa nem percebe — mas que vão se acumulando ao longo dos anos.

Um dado que surpreende muita gente: só 10% dos casos de demência vascular são "puros". Na maioria das vezes, ela aparece junto com o Alzheimer, formando uma demência mista. Isso mostra como cuidar da pressão, do açúcar e do colesterol não é só assunto de cardiologista — é prevenção do cérebro também.

Os sintomas da demência vascular são diferentes do Alzheimer num ponto importante: o que sofre mais no começo não é tanto a memória, mas sim a capacidade de se concentrar, de raciocinar com rapidez e de se organizar. A pessoa pode estar esquecendo menos, mas demorando mais para pensar, tendo dificuldade de tomar decisões simples, ou se sentindo mentalmente "mais lenta".

Outra característica que diferencia: a piora tende a acontecer em "degraus". Fica estável por um período, depois piora de repente após um novo evento vascular, estabiliza de novo. Oscilação do humor e instabilidade emocional é muito frequente. Depressão aparece com frequência e muitas vezes é o primeiro sinal.

Quem tem mais risco

        Pessoas com histórico de pressão alta, diabetes, colesterol alto, sedentários, AVC, problemas no coração ou que fumaram por muitos anos têm maior risco de desenvolver demência vascular. Controlar essas condições ao longo da vida é a principal forma de prevenção — e, quando a demência já está instalada, de evitar que piore mais rápido.

3. Demência por Corpos de Lewy — a mais desconhecida e a mais confundida

           Esse nome pode parecer complicado, mas vale aprender — porque a demência por corpos de Lewy é o terceiro tipo mais comum de demência, e é muito frequentemente confundida com Alzheimer ou com a doença de Parkinson. Esse erro pode ter consequências sérias.

Ela acontece porque uma proteína chamada alfa-sinucleína se acumula no cérebro em estruturas chamadas corpos de Lewy. Essa mesma proteína está envolvida na doença de Parkinson — e é por isso que as duas doenças têm características parecidas. A diferença principal é a seguinte: na demência com corpos de Lewy, os problemas de memória e pensamento aparecem antes ou ao mesmo tempo que os problemas de movimento. No Parkinson, é o contrário — o tremor e a rigidez vêm muito antes da demência.

Existem quatro sintomas que, quando aparecem juntos, são muito característicos dessa demência:

A cognição que oscila muito. A pessoa pode estar bem pela manhã e muito confusa à tarde. Ou passar por um período de dias bons, seguido de dias ruins. Os cuidadores descrevem episódios que parecem "apagões" — a pessoa para de responder, fica com o olhar perdido, parece ausente por alguns minutos, e depois volta. Isso assusta muito a família, que às vezes corre para o pronto-socorro imaginando que foi um derrame.

Alucinações visuais. A pessoa vê coisas que não existem — pessoas, crianças, animais, objetos bem definidos. Pode ocorrer também de verem vultos ou sombras / sensação de presença de alguém. Com frequência ela mesma estranha e conta para a família. Isso aparece cedo na doença, diferentemente do Alzheimer onde alucinações são raras no início.

Sintomas de parkinsonismo. Lentidão para se mover, rigidez, passos curtos, dificuldade de equilíbrio. Não necessariamente tremor — muitas pessoas com corpos de Lewy não têm tremor.

Sonhos vívidos. A pessoa fala, grita, gesticula, chuta ou luta enquanto dorme, como se estivesse vivendo o que está sonhando. Muitas vezes esse sintoma começa anos antes do diagnóstico de demência — e é um sinal que os médicos levam muito a sério.

O alerta mais importante para cuidadores

       Pessoas com demência por corpos de Lewy têm uma sensibilidade grave a certos remédios para agitação e alucinações — os chamados antipsicóticos. Medicamentos que seriam usados para acalmar podem provocar uma reação muito séria nesses pacientes, com piora intensa dos movimentos e da cognição. Essa é uma informação que toda família precisa conhecer e comunicar a qualquer profissional de saúde que atenda o familiar — especialmente em emergências.

4. Demência Frontotemporal — quando muda a personalidade, não a memória

        Esse tipo de demência é o que mais surpreende as famílias — porque o primeiro sinal não é o esquecimento. É a mudança de comportamento e de personalidade.

A demência frontotemporal afeta os lobos frontal e temporal do cérebro — as regiões responsáveis pelo controle do comportamento, da personalidade, da empatia e da linguagem. Ela tende a acontecer mais cedo do que os outros tipos: a maioria dos casos aparece entre os 45 e os 65 anos, atingindo pessoas ainda em plena vida profissional e familiar.

Existem dois grandes perfis de apresentação:

Quando o comportamento muda

         Essa é a forma mais comum. A família começa a notar que a pessoa "virou outra". Pode se tornar desinibida — diz coisas inadequadas sem perceber, ri em momentos inapropriados, age sem freio social. Ou pode se tornar apática — perde o interesse em tudo, para de trabalhar, de se cuidar, de se relacionar. Comportamentos repetitivos e compulsivos são frequentes: a pessoa faz as mesmas perguntas, percorre os mesmos caminhos, come os mesmos alimentos todos os dias. Preferência exagerada por doces é muito comum.

O que é especialmente difícil nessa forma é que a memória, no início, muitas vezes está preservada. A pessoa se lembra bem das coisas — mas o comportamento é completamente diferente do que sempre foi. Isso confunde a família e frequentemente leva a diagnósticos errados de depressão, de crise de relacionamento ou até de "frescura".

Outro complicador: a pessoa não percebe que mudou. Ela não tem consciência das suas próprias alterações. Isso torna ainda mais difícil convencê-la de que precisa de ajuda médica.

Quando a linguagem começa a falhar

       Em outras formas de demência frontotemporal, o que aparece primeiro não é o comportamento, mas a fala. A pessoa começa a ter dificuldade crescente de se comunicar — perde o significado das palavras, fala de forma telegráfica e difícil de entender, ou tem cada vez mais dificuldade de encontrar o nome das coisas. A memória e o comportamento, nesses casos, podem se manter preservados por bastante tempo.

Por que o diagnóstico demora

      A demência frontotemporal é frequentemente confundida com depressão, transtorno bipolar ou problemas de relacionamento — especialmente nas formas de comportamento. Famílias passam meses ou anos tentando entender o que está acontecendo antes de chegar ao diagnóstico correto. Se o seu familiar está apresentando mudanças expressivas de comportamento ou personalidade — especialmente antes dos 70 anos — vale buscar uma avaliação com prioridade.

Demências mistas: quando há mais de uma causa ao mesmo tempo

       Uma coisa que pouca gente sabe é que é muito comum um idoso ter mais de um tipo de demência ao mesmo tempo. A combinação mais frequente é Alzheimer com lesões vasculares. Estima-se que um terço das pessoas com Alzheimer tenha também algum grau de comprometimento vascular no cérebro.

Isso tem uma implicação prática importante: cuidar da pressão, do açúcar e do colesterol beneficia não só o coração, mas também o cérebro — e pode fazer diferença na velocidade com que a demência avança, mesmo quando o diagnóstico principal é Alzheimer.

E existem demências que podem ser revertidas?

         Sim — e essa é uma das razões pelas quais a investigação médica correta é tão importante.

Estima-se que cerca de 5 a 10% das demências tenham uma causa tratável. As mais comuns são: medicamentos que prejudicam a cognição (responsáveis por 28% desses casos), depressão que imita a demência (26%), problemas na tireoide ou deficiência de vitamina B12 (15%), acúmulo de líquido no cérebro chamado hidrocefalia de pressão normal (10,7%), sangramento crônico entre o crânio e o cérebro (5,8%) e tumores cerebrais (4%).

Na prática, a reversão completa é rara — mas identificar e tratar essas causas pode fazer uma diferença enorme na qualidade de vida. Por isso, nenhum diagnóstico de demência deve ser feito sem uma investigação adequada para descartar essas possibilidades.

Saber o tipo certo muda o cuidado

        Entender que tipo de demência o seu familiar tem não é só curiosidade. É informação que afeta diretamente as decisões de cuidado: quais medicamentos podem ser usados (e quais precisam ser evitados), como lidar com os sintomas que vão aparecer, como se preparar para o que vem pela frente.

No Alzheimer, o foco está no manejo gradual da memória e da dependência. Na demência vascular, o controle das doenças cardiovasculares é fundamental. Na demência por corpos de Lewy, existe um cuidado específico com certos remédios que podem ser perigosos. Na demência frontotemporal, as estratégias para lidar com as mudanças de comportamento são diferentes das usadas no Alzheimer.

Cada tipo tem seu perfil. Conhecer o diagnóstico correto é o primeiro passo para cuidar com mais segurança, mais empatia e menos surpresas.

Se depois de ler este artigo você ficou com dúvidas sobre o diagnóstico do seu familiar — ou se percebeu que nunca houve uma investigação completa — converse com o médico de referência. Uma avaliação especializada pode mudar o rumo do cuidado.

Grande abraço,    
                       

 Dr Mohamed Handous

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