Delirium: quando o idoso fica confuso “do nada”

Entenda sobre essa emergência geriátrica muito comum e negligenciada no meio médico!

Dr Mohamed Handous

7/1/20265 min read

Eram dez horas da noite quando o telefone tocou. Do outro lado, a voz de uma filha em desespero: "Doutor, minha mãe ficou confusa, agitada... ela tá tão diferente. Até ontem ela estava super bem. O que pode estar acontecendo?"

Essa cena se repete o tempo todo, no consultório e nos corredores dos hospitais. E ela tem uma explicação médica precisa, que toda família que cuida de um idoso deveria conhecer. Vamos entender juntos.

O primeiro passo: como essa pessoa era antes?

Antes de qualquer conclusão, a primeira pergunta que eu faço é sempre a mesma: como era o basal desse paciente? Ou seja, como essa pessoa se comportava no dia a dia, antes desse episódio agudo?

Se é alguém que já tem uma demência em fase moderada ou avançada, com confusões e alucinações que já vêm de longa data, de meses, isso normalmente não representa uma mudança nova — é o padrão dela. Mas se é uma pessoa lúcida, ou com uma demência mais leve, que no máximo repetia perguntas e nunca teve alucinações ou confusão mental, e do nada ela começa a ficar agitada, desorientada, com uma mudança brusca do jeito de ser dela — aí sim, esse é o sinal de alerta. Alguma coisa nova está acontecendo.

Delirium (com M) não é a mesma coisa que delírio (com O)

Aqui mora uma confusão de linguagem muito comum, e vale a pena esclarecer. Delírio, com "o" no final, é um sintoma psiquiátrico: uma ideia irreal que a pessoa passa a acreditar, como o delírio de perseguição (achar que alguém a persegue) ou o delírio de roubo (achar que estão roubando seus pertences).

Delirium, com "m" no final, é outra coisa: é uma síndrome clínica. É o cérebro do idoso avisando que alguma coisa no corpo não vai bem. Pode ser em qualquer órgão, qualquer sistema — o cérebro do idoso é o mais sensível, e por isso costuma ser o primeiro a demonstrar que algo está errado.

Por que o cérebro do idoso é tão mais vulnerável

O cérebro de uma pessoa idosa já é, por natureza, mais sensível do que o de uma pessoa jovem. Quando somamos a isso uma demência, uma fragilidade importante, baixa funcionalidade ou histórico de etilismo, esse cérebro fica ainda mais suscetível. Nesses pacientes, basta um insulto pequeno no corpo para o cérebro "sair do ar".

E o que conta como insulto? Uma desidratação, uma infecção, um distúrbio de sódio ou cálcio no sangue, uma dor mal controlada, intestino preso, bexiga cheia sem conseguir urinar. São problemas espalhados pelo corpo, mas quem sente e quem avisa primeiro, no idoso frágil, costuma ser o cérebro — através da confusão, da agitação ou, às vezes, do excesso de sono.

Como reconhecer o delirium

Existem critérios bem definidos que os médicos usam. Os dois primeiros são obrigatórios: início agudo e flutuante — a pessoa muda de um jeito abrupto, e o quadro varia ao longo do próprio dia, indo e voltando entre lucidez e confusão; e desatenção — a pessoa não consegue mais acompanhar direito uma conversa.

Junto a esses dois, é preciso haver pelo menos mais um sinal: pensamento desorganizado, com falas sem nexo, ou alteração do nível de consciência, que pode ir para os dois lados — desde uma agitação importante até uma sonolência excessiva, fora do normal da pessoa.

É essa flutuação, junto com o caráter abrupto, que diferencia o delirium da confusão mental crônica que já acompanha uma demência em curso há meses ou anos. No delirium, é uma mudança nova. Na demência estabelecida, é a continuidade — ainda que, mesmo nesses casos, um delirium sobreposto também possa acontecer, e a pista, de novo, é a comparação com o basal daquela pessoa.

Onde e por que costuma acontecer

O delirium pode surgir em casa — e, nesse caso, é motivo de levar o idoso a um pronto atendimento imediatamente —, mas ele é bem mais comum durante internações hospitalares. Cerca de metade dos idosos internados desenvolve algum grau de delirium, e esse número sobe para 70% entre os que passam por uma UTI. Só a mudança de ambiente, sair de casa e ir para um lugar desconhecido, já é suficiente para desorganizar um cérebro mais sensível.

Entre as causas mais comuns estão infecções — muitas vezes sem os sintomas clássicos: uma pneumonia sem tosse ou febre, uma infecção urinária sem ardência, manifestando-se só como confusão mental —, desidratação, alterações de eletrólitos no sangue, dor não tratada, intestino preso, bexiga cheia (o chamado bexigoma), introdução de medicações novas ou suspensão abrupta de remédios de uso contínuo, falta dos óculos ou do aparelho auditivo durante a internação, ausência de luz solar e falta de um acompanhante por perto.

Um ponto que merece atenção especial: quedas com pancada na cabeça. Nos dez a quinze dias seguintes a uma queda, vale observar de perto o idoso, porque um sangramento dentro do crânio pode se acumular lentamente e só dar sinais — geralmente confusão mental — dias depois.

Por que isso é uma emergência, e não algo para esperar passar

O delirium é considerado uma emergência geriátrica. Ele está associado a maior risco de mortalidade, maior tempo de internação, piora do declínio cognitivo em quem já tem demência, e perda de funcionalidade — a pessoa pode sair do episódio fazendo menos coisas sozinha do que fazia antes.

E o dado mais preocupante: em cerca de 70% dos casos, o delirium passa despercebido — nem a família, nem o próprio médico ou a equipe de saúde identificam a tempo. É exatamente por isso que quem convive todo dia com o idoso, o cuidador, o familiar, tem um papel insubstituível: ninguém mais reconhece uma mudança de padrão tão bem quanto quem vive aquele padrão de perto.

Além disso, a recuperação nem sempre é imediata. Um terço dos pacientes ainda apresenta sintomas até um mês após a alta hospitalar, e cerca de 20% podem levar até seis meses para voltar ao normal. Isso reforça a importância de manter o acompanhamento médico mesmo depois que o idoso recebe alta.

O que fazer se você perceber algo assim

Se o seu familiar está em casa e você percebe uma mudança brusca de comportamento em relação ao jeito dele de ser, não espere marcar uma consulta — leve-o a um pronto atendimento imediatamente e comunique o médico responsável. Se ele já está internado, avise a equipe de saúde assim que notar qualquer alteração: quanto antes o delirium é identificado e sua causa tratada, menor o risco de complicações e de sequelas prolongadas.

A lição mais importante

Conheça o basal do seu familiar. Saiba como ele é no dia a dia — o jeito de falar, de se comportar, de reagir. Porque é justamente essa referência que vai permitir que você identifique, com clareza, qualquer mudança brusca. E qualquer mudança brusca, nítida, em relação ao que ele sempre foi, já é motivo suficiente para procurar ajuda médica.

Grande abraço,

Dr Mohamed Handous

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